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Mulheres conquistam cada vez mais espaço na sociedade
08/03/2010 às 08:23

Trabalhando em ofícios tradicionalmente masculinos, na política ou comandando os negócios, elas mostram importância do olhar feminino no mundo contemporâneo

Por Leandro Czerniaski

Trabalhando em ofícios tradicionalmente masculinos, na política ou comandando os negócios, elas mostram importância do olhar feminino no mundo contemporâneo

Brenda Scheid é motorista há três anos, e conta que, no início, teve mais apoio que preconceito
Já se foi o tempo em que as famílias eram predominantemente patriarcais. Onde enquanto os homens iam trabalhar e eram responsáveis pelo sustento da casa, as mulheres cuidavam dos filhos, dos serviços, e muitas vezes, sem ao menos ter poder de crítica ou autonomia para tomar decisões.

A submissão era lei, a obediência, uma regra.

Porém, a partir do século XIX, através de um processo de evolução na conquista de direitos, as mulheres, antes praticamente ignoradas pela sociedade machista, passaram a vencer barreiras de restrição quanto ao gênero. Mas o processo foi longo e árduo para que se chegasse ao patamar de hoje.

Atualmente não causa estranheza em ver uma mulher na boleia de um caminhão, na linha de produção de uma indústria e até mesmo em trabalhos mais pesados, onde a predominância ainda é masculina. Mas apesar da discriminação salarial, é possível perceber que as mulheres conquistam cada vez mais seu espaço não somente no mercado de trabalho, mas também nas relações sociais.

PARTICIPAÇÃO TÍMIDA NA POLÍTICA
A deputada estadual Luciana Rafagnin (PT), é um dos exemplos de participação política das mulheres. Sua trajetória iniciou no movimento feminista, e a partir do incentivo das próprias companheiras lançou-se candidata a vereadora, sendo a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Câmara de Vereadores de Francisco Beltrão, juntamente com Maria de Lourdes Pazzini, em 1993.

“Na questão política, eu vejo como tímida a participação da mulher, embora cresceu, somente cerca de 20% dos candidatos a deputado foram mulheres, algo conquistado a partir de lutas muito importantes para a participação, mas que ainda está longe de um ideal de representação feminina”, afirma ela, que atribuí à questão cultural a falta de representatividade feminina em cargos públicos. “A política ainda é uma espécie de tabu para as mulheres, isso pela questão cultural, pois as mulheres ficavam muito cuidando do lar e família, ficando a política como um espaço masculino”, diz.

Após eleger-se vereadora, em 1992, Luciana tentou, em 2000, a vaga de prefeita, perdendo por apenas 2 mil votos de diferença, porém em 2002, candidatou-se deputada estadual pelo Partido dos Trabalhadores, legenda pela qual foi eleita.

PARTIDOS DEVEM INCENTIVAR
Militando no PT juntamente com grandes forças como Gleisi Hoffmann e Dilma Rousseff, Luciana Rafagnin elenca a abertura dos próprios partidos para a participação feminina como fator decisivo para o aumento da representatividade em cargos públicos. “Ela vai começar a ter uma participação maior quando os partidos abrirem mais este espaço para as mulheres, com os dirigentes abrindo-se para este olhar feminino, que precisa estar na política”, opina ela, que também atribui ao apoio familiar um dos principais incentivos. “Para que a mulher entre na política é muito importante ao apoio familiar, do pai, mãe, marido; é muito importante o apoio e incentivo do partido, para não só ser da direção, mas vir a ser candidata. Tudo isso faz com que ela se sinta mais segura e comece a participar”, conclui.

NÚMEROS
Números traduzem a realidade da participação política das mulheres. No Poder Executivo são duas ministras, três governadoras e 502 prefeitas. No Legislativo a participação é de 11 senadoras (13,5%); 45 deputadas federais (8,7%); 123 deputadas estaduais e 6.508 vereadoras (12,52%). Os índices são baixos, sendo que na América Latina somente Colômbia, Haiti e Belize possuem menos mulheres na política. Cuba, por exemplo, possui 43,2% de mulheres em cargos públicos, já no Brasil a percentagem é de 8,7%.

MULHER EM ORGANIZAÇÕES SOCIAIS
De fato a participação política da mulher é importante, mas na sociedade também temos outros exemplos, como a liderança em organizações sociais. A Associação Empresarial de Francisco Beltrão, por exemplo, possui um conselho específico que trata dos assuntos feministas. O Conselho da Mulher Empresária conta com nove integrantes e é presidido por Silvana Urio Cichocki, que argumenta da necessidade de haver equilíbrio maior na divisão de tarefas entre homens e mulheres. “As mulheres que trabalham, por exemplo, enfrentam uma dupla jornada, pois chegam em casa e tem que cuidar dos filhos, da família, mas hoje já se percebe que o homem também participa, levando o filho no pediatra, indo às reuniões da escola, enfim, um maior equilíbrio evita a sobrecarga da mulher”, afirma. “O desafio da mulher moderna é buscar esse equilíbrio e no trabalho conseguir ser competente, mas sem deixar de lado sua feminilidade", completa.

Apesar de a questão histórica e cultural direcionar determinados preconceitos quanto à atuação da mulher em grupos sociais, políticos e econômicos, na área dos negócios, Silvana afirma que é importante a presença da mulher, principalmente pelo fato de se pluralizar certos temas, colocando pontos de vistas diferentes. “Grandes empresas têm em sua diretoria tanto homens quanto mulheres; mas isso porque nós temos uma visão diferente da masculina em vários temas, e essa composição de homens e mulheres mescla as opiniões, fazendo com que se tome decisões mais universais”, assegura a presidente do CME.

NA BOLEIA DO LOTAÇÃO, ELA DOMINA
Quem comumente utiliza-se do transporte coletivo em Francisco Beltrão também pode identificar que as mulheres estão tomando contas até mesmo de profissões antes exercidas somente por homens. Brenda Vargas Scheid passa a manhã inteira na boleia do lotação, percorrendo as ruas da cidade, exercendo a profissão onde além de ter que ser bom de braço e atenta, também é necessário responsabilidade e técnica na condução. “No começo foi até engraçado: algumas pessoas rejeitavam, outros achavam legal, mas com o tempo foram se acostumando, tanto que eu tive mais apoio do que preconceito”, afirma Brenda, que há três anos atua na profissão.

Mas o que para muitos pode ser vocação, para Brenda foi algo que aconteceu meio que por acaso. Seu pai é sócio da empresa de transporte coletivo, e para poder conciliar estudo e trabalho, ela resolveu trabalhar com o pai, somente em meio período. "Eu sempre gostei de dirigir e aqui na firma ficava observando os motoristas, então eu resolvi pedir essa oportunidade e achei legal, até por ser só meio período e eu também ter tempo de estudar", finaliza a motorista, que em breve se forma em Direito.
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